Faz tempo que não escrevo aqui. Acho que vai ser o primeiro post com algo mais voltado pra crônica cinematográfica. O filme The Hourglass Sanatorium, do Wojciech Jerzy Has, de 1973... o que dizer dele? Muita coisa, com certeza. Ele entra no nosso subconsciente de um jeito estranho. Você não assiste exatamente — você sente. O tempo no filme não é linear. Ele gira, retorna, se desfaz. Como uma ampulheta: quando a areia termina, você vira e vê tudo de novo, igual e diferente. O tempo não acaba, ele recomeça. Mas recomeça ferido.
Falando em ferida... algumas cenas devem ter revirado o estômago até dos atores. Não é grotesco no sentido tradicional. Mas em algumas cenas, meu senso de moral foi testado. Eu sei que o filme é de outra época, que o contexto é diferente, que é importante ver com esse filtro. Não quero cancelar o filme, nem aceitar tudo sem crítica. Mas preciso admitir algumas coisas:
- A fotografia é muito boa. A composição das imagens, as cores — especialmente na versão remasterizada.
- As falas podem parecer sem sentido, mas não são. São oníricas, e esse é o clima mesmo. O roteiro é um fluxo, não uma linha.
- O elenco entrega muito, mesmo com personagens que refletem estereótipos racistas daquela época — o que incomoda e não pode ser ignorado.
- E os personagens... são instigantes e, ao mesmo tempo, perturbadores.
Terminei de ver o filme há pouco mais de uma hora e já estou pensando em rever. Não porque foi leve ou agradável, mas porque deixou coisas suspensas. Quero captar detalhes que escaparam. Esse trabalho do Has é complicado, é intricado. Uma crítica ao regime, à memória judaica, à estrutura do tempo.
A mise-en-scène aposta no excesso. Tem nudez que incomoda. Erotismo que parece mais trauma do que desejo. Bianca, por exemplo, é apresentada com uma aura de ninfa — frágil, quase infantil — o que hoje nos faz repensar se isso deveria ter sido romantizado. A presença de personagens racializados em papéis degradantes — especialmente em uma cena violenta e mal elaborada — denuncia o quanto o imaginário europeu ainda se sustentava em estruturas coloniais não questionadas, mesmo dentro da liberdade alegada pelo surrealismo.
O filme abre com um deslocamento ferroviário: um trem conduzido por um homem cego atravessa paisagens que já não obedecem às estações. Essa viagem, inicialmente marcada por certa familiaridade — a busca de Józef por seu pai, hospitalizado em um sanatório decrépito —, logo se dissolve em uma arquitetura onírica onde lembrança, alucinação e rito se sobrepõem em camadas. Has constrói o espaço cinematográfico como se edificar um museu do inconsciente. Cada sala, cada corredor, cada personagem evocado remete menos a uma lembrança objetiva do que à viscosidade de um afeto mal digerido. A loja de tecidos, infestada de traças e vermes, é um dos símbolos mais eloquentes dessa corrosão da herança — cultural, familiar e psíquica. O que antes era sustento, agora fede.
O tempo apodrece tudo. Inclusive o que lembramos.
A sequência final, que mostra Józef cego, saindo de uma espécie de cova e caminhando sem rumo, não oferece redenção. O protagonista não reencontra a mãe. Não retorna ao trem. Não acorda. O que resta é o passo desorientado, não um final feliz. O que leio aqui é que ele não está nem vivo nem morto, é aquele último lampejo de consciência antes de cair no limbo, no esquecimento.
Há quem leia The Hourglass Sanatorium como uma elegia ao tempo, à infância, à identidade judaica polonesa aniquilada pela história. Outros o percebem como um delírio estético sem concessões. Ambos devem ter razão. Has não entrega explicações, mas coloca o espectador diante do próprio espelho embaçado do inconsciente. Cabe a cada um decidir se o que vê é sonho, pesadelo — ou memória terminal.
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