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Rir pra não chorar

 Aqui estamos nós de novo, após um grande hiato (exceto em abril, quando postei um poema). Sim, o que eu temia aconteceu: terminei meu relacionamento, iniciei um podcast em Portugal e retornei ao Brasil, mas não foi o fim do mundo como eu imaginava. Ao revisar minha escolha de palavras e ortografia do português de Portugal para agora retornar ao português brasileiro, não posso deixar de sentir um certo senso de humor na vida de uma forma geral. Recentemente, revi algumas fotos antigas e tentei recordar meus sonhos e aspirações, e o que de fato eu pensava naquela época. Tem sido extremamente terapêutico essa dinâmica de revisitar pensamentos e analisar esse contraste do antes e depois. Hoje, tenho mais maturidade do que tinha há sete meses atrás. Isso porque, antes desses sete meses, infelizmente, não me dei tempo para digerir todos esses anos que se passaram. Agora, com muito esforço, consegui fazer isso. E quando digo ‘muito esforço’, não é exagero algum enfatizar o quão difícil foi, porque realmente foi muito difícil.

Tenho mudado também minha rotina diária, que agora inclui algumas práticas de higiene que, antes, devido à minha depressão, não ocorriam com a frequência desejada. Uma delas foi a higiene pessoal e do lar — perceba que não digo mais ‘casa’, mas agora sinto que tenho um ‘lar’ — e a outra foi a higiene dos pensamentos, a autocrítica, a autoavaliação e das minhas relações. Realizei uma limpeza geral daquilo que não me servia e o processo ainda está em andamento. Uma das coisas que estou tentando manter limpa é a esfera das relações afetivas-sexuais. Tenho um histórico de acreditar que meu "sujeito favorito" (hoje sei dar nome ao que isso é) era o centro da minha vida, e por isso ignorava insultos dirigidos a mim, falta de respeito comigo mesma, tanto vindo de outros quanto de mim, microagressões verbais e até agressões físicas. Isso até eu ouvir as palavras de Valeska Zanelli e da personagem Fran da peça "King Kong Fran" (da atriz Rafaela Azevedo), e meu entendimento sobre feminilidade, meu papel na sociedade e minha identidade foram postos em xeque. Uma das coisas que foi questionada foi exatamente meu diagnóstico de "Transtorno de Personalidade Borderline", que, aliás, muitas mulheres têm recebido desde que foi incluído no DSM-IV na década de 80. Tudo isso foi uma construção de meses que venho fazendo… na verdade, corrigindo, uma desconstrução. Ouvindo Tati Bernardi, Uol Universa, Revista TPM e meu psicólogo. Meu problema com a feminilidade é familiar, estrutural, geracional e social. É inédito na minha vida compreender que não preciso de um parceiro (ou até de uma parceira, já que sou bissexual) e não ter vergonha de falar sobre sexo ou sobre prazer sexual. Estamos em pleno século 21; sou adulta perante a lei desde os meus 15 anos, ou seja, há quase 20 anos (obtive emancipação antes dos 18, então contabilizem o tempo que já pago boletos), e mesmo assim ainda levei todo esse tempo para acordar para a vida. Não sou "woke", e mesmo assim, não acredito que estou totalmente desperta; ainda tenho muito a aprender para finalmente compreender o meu papel, e entendo que esse processo está em curso para todas as pessoas que mencionei antes, porque somos humanos e estamos em constante desconstrução e construção, interna e externa.

"Eu sou sim..."

Esta é uma frase que ao ser completada, terá o que preciso afirmar sobre mim mesma, pois às vezes teimo em lembrar quem sou, o que sei e como me posicionar perante a sociedade. Sim, eu sou uma artista, uma escritora, uma cantora e muito mais. Não preciso ser perfeita, nem quero ser. Que aqueles que exigem perfeição de mim fiquem a quilômetros de distância. Porque eu sou criativa, e a perfeição me paralisa; para criar, para tirar do papel (ou da minha mente) tudo o que desejo expressar, não posso me dar ao luxo de buscar a perfeição. Acredito até que ser perfeito não é um privilégio, mas sim um problema a ser enfrentado. A perfeição não existe, pois é algo subjetivo e falho. Ela depende de um observador humano, que certamente terá seus filtros, vieses e preconceitos, e isso de forma alguma deveria definir ou qualificar algo como bom ou correto para todos. Ninguém merece nada por definição. Conquistamos tudo, até mesmo nossos direitos devem ser conquistados, não apenas merecidos.

Eu tinha um grande preconceito com a filosofia, na verdade, era uma verdadeira preguiça. Pensar sobre etimologias, palavras "caras" ou "difíceis" me causava asco e repulsa, pois eu acreditava que isso seria sinônimo de esnobismo, falsidade e mesquinhez. Nunca soube, como sei agora, o quanto esse pensamento é equivocado e infantil. Compreender o porquê fazemos as coisas, entender o que está oculto, é sinal de maturidade, seriedade e realidade. É ilusório pensar que até as fantasias não têm utilidade além de entreter. Tudo, até o que é subjetivo, tem um propósito, foi estudado e tem contexto. Foi entendendo esse contexto, tanto externo quanto interno, que percebi estar mais madura, pois tenho feito essa reflexão nos últimos meses.

Hoje, descobri a peça "King Kong Fran" no podcast "Bom Dia Obvious" de Marcela Ceribelli e compreendi o poder do riso para nos preparar para a realidade, conforme a própria peça propõe. Ao olhar para o meu passado e reescutar os episódios do meu podcast, pude entender por que rir é melhor do que chorar. Não que eu considere meu passado e o que disse motivo de piada, mas sim perceber que é engraçado como eu pensava que estar destruída ou emocionalmente fragilizada seria o prelúdio de um fim. O que se mostrou totalmente contrário à realidade, e não posso deixar de rir disso.

Rir é, sim, curativo, tanto quanto chorar.




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